Existe um jeito de usar IA que te deixa MAIS fácil de substituir.

E o detalhe cruel: quem usa desse jeito acha que está na frente.

A cena é essa, e talvez seja a tua: os posts saem prontos do ChatGPT, a copy sai do Claude, o rosto virou um avatar treinado no HeyGen, e tudo parece produtividade.

Tá lindo. Tá performando. Tá economizando um tempo absurdo.

Eu vivo dentro dessa ferramenta desde 2023, quando a galera ainda ria de mim por dizer que IA criaria sites inteiros. E mesmo assim vou te dizer uma frase que arranha: em alguns casos, é melhor você nem usar.

Não porque a ferramenta seja ruim. É porque tem gente usando ela pra apagar exatamente o que a tornava difícil de substituir. E fazendo isso com orgulho, achando que é produtividade.

Se isso soa exagerado, me dá três minutos e olha o que essas máquinas comem no café da manhã.

O mecanismo começa no cardápio delas.

Como a IA é treinada: a máquina se alimenta de você

Treinar um modelo de linguagem exige uma coisa em quantidade industrial: texto escrito por humanos.

Essa é a fundação do negócio inteiro dessas empresas.

Repara no que a Anthropic fez: comprou e escaneou milhões de livros impressos pra alimentar os modelos, e o caso virou processo nos Estados Unidos. O mercado inteiro caça texto antigo, anterior à era do conteúdo contaminado.

Por que livros velhos? Porque os novos já nasceram contaminados pela própria IA, e o comportamento de compra dessas empresas mostra que elas sabem disso. Eu falo de dentro, porque faço isso nos livros que estou escrevendo: a escrita é minha, e a IA revisa data, confere afirmação, aponta furo. Teve dia que fiquei inteiro só nessa revisão.

E quando um modelo treina só no que outro modelo gerou, sem sangue novo humano, ele tende a degradar. O fenômeno tem nome, model collapse, e foi descrito na Nature em 2024.

Ou seja: essas máquinas precisam de essência humana pra existir. Sem o que a gente escreve de forma única, elas definham.

Pensa no Dementador de Harry Potter, que suga a alma. Ou no Matrix, com a gente servindo de bateria. A imagem é caricata, mas a economia é literal.

É como eu leio a compra do X pelo Elon Musk: onde mais você encontra conteúdo humano cru jorrando o dia inteiro?

A briga bilionária dessas empresas é por matéria-prima. E a matéria-prima é você.

Agora inverte a lente, porque a moeda tem dois lados. O que exatamente ela devolve pra você quando você pede o teu post, a tua copy, o teu vídeo?

Se a máquina come a essência de milhões de pessoas, o que ela devolve é a média: bem escrita, bem formatada, e idêntica na estrutura ao que ela devolve pro teu concorrente.

Guarda essa palavra, média. A próxima conta é sobre o teu mercado.

Conteúdo genérico de IA: por que a média não paga

Se todo advogado do teu mercado joga o mesmo pedido no mesmo Claude, o que sai pra ele é primo-irmão do que sai pra você. Troca advogado por nutricionista, arquiteto, dono de agência. A frase não muda.

O teu diferencial era o filtro: teu repertório, tua história, a metodologia que faz você construir do jeito que só você constrói. A tua essência. Quando você entrega essas partes pra máquina fazer sozinha, o diferencial evapora e sobra a embalagem.

O Yuval Harari tem um nome pra onde isso termina: classe economicamente inútil. Gente que o mercado não consegue mais aproveitar.

E talvez seja exatamente isso que você está fazendo agora: acelerando a própria trajetória pra se tornar economicamente inútil. Com orgulho da produtividade.

Eu chamo de troca burra: entregar o ativo e ficar segurando a commodity.

"Mas Alan, então a IA vai acabar com os empregos?" Não falta emprego. Falta gente capacitada.

Todo empresário que eu conheço, mesmo o que jura que congelou contratação, abriria vaga amanhã pra alguém singular que faz acontecer. No mundo que eu vejo de dentro, pessoas boas não ficam desempregadas.

Quer ver isso em número? Numa das minhas idas ao Vale do Silício, conheci uma engenheira de prompts da Anthropic. Fiquei com a pulga atrás da orelha: lá tudo é caríssimo, até alugar casa. Quanto ganha uma pessoa dessas?

Fui atrás no site de vagas da empresa. As posições de engenharia pagavam de 290 mil a 435 mil dólares por ano. Num câmbio de 5 reais, dá de R$ 1,45 a R$ 2,17 milhões por ano.

E toda vez que eu abro esse site, tem MAIS vaga, não menos. A empresa dona de um dos melhores modelos do mundo contratando cada vez mais gente.

Se a IA fizesse tudo, esse site estaria vazio. Ele está cheio porque o que é escasso não é produção de conteúdo. É gente que a máquina não imita.

O que a máquina imita bem, por outro lado, ela come primeiro. E essa conta eu fiz na ponta do lápis, partindo de um número do governo.

Substituído pela IA ou amplificado: a mesma ferramenta, dois destinos

Abre o profissoes.org, o site que eu construí cruzando fontes públicas de trabalho, e digita "digitador". O índice marca: a IA já é capaz de executar 100% desse trabalho.

Agora o dado que me fez arregalar o olho: ainda existem 25,5 mil vínculos de digitador no Brasil, dado de 2023 do RAIS, com salário médio de R$ 1.700. Existem prédios inteiros em São Paulo digitalizando papel: andares de gente lendo documento e digitando pra dentro de sistema.

Eu não acreditei quando li, e fui pesquisar. É registro formal de governo, não estimativa de consultoria.

Por que a profissão 100% substituível ainda mantém 25,5 mil vínculos formais? Porque a distribuição da tecnologia não anda na velocidade em que ela é criada. Entre o anúncio do modelo e a mudança do mercado existe um vão de anos.

Esse vão é uma janela. Então fiz a conta de quem entra por ela, e pedi pra própria IA calcular na minha frente.

A estimativa: uma operação com 500 digitadores custa entre R$ 1,1 e R$ 1,4 milhão por mês, somando folha, encargos e escritório. A mesma entrega, numa operação desenhada com IA desde o início: 25 a 40 pessoas, de R$ 150 a R$ 350 mil.

Agora bota as duas pra disputar o mesmo contrato. Uma entrega em uma semana com 30% de desconto. A outra pede dois meses.

E a operação enxuta pode se dar um luxo que a de 500 pessoas jamais teria margem pra pagar: chegar no cliente e propor "me manda 10% do trabalho, eu executo de graça pra provar". Margem compra ousadia.

Essa conta é uma estimativa feita por IA, e eu prefiro te dizer isso na cara. Agora deixa eu te contar uma que não é estimativa, porque aconteceu na minha semana.

Eu precisava gravar 31 anúncios pro Desafio que vem aí. Trinta e uma peças, gravadas uma a uma, dariam umas 6 horas de estúdio.

A IA pegou os 31 roteiros e montou num documento uma ordem única de gravação, com 3 pontes de conexão entre um texto e outro, pra eu ler tudo numa tacada só. Sentei na frente da câmera e gravei direto: 35 minutos.

Depois ela recombinou ganchos e chamadas e transformou as 31 peças em 52. Separou os cortes, sincronizou as duas câmeras e baixou sozinha o perfil de cor no site da Sony pra deixar a imagem cinematográfica.

Meu editor recebeu tudo pronto, com guia de edição. E repara no detalhe que muda a leitura inteira: o editor continua aqui. Amplificado. O que sumiu foi o trabalho chato de renomear arquivo e cortar suspiro, não a pessoa.

Dois destinos, mesma ferramenta. De um lado, quem entregou pra IA a parte que o diferenciava. Do outro, quem entregou pra IA o processo e guardou pra si o que só ele faz.

A régua que separa os dois não é quanto de IA você usa. É onde ela entra.

Como iatizar do jeito certo: o processo, não a pessoa

Existe uma conta simples que resume tudo isso: multiplicar infinito por zero dá zero.

A IA é o infinito da equação. Ela multiplica o que você coloca dentro. Se você coloca teu repertório, tua história, teu jeito de resolver, ela multiplica isso a uma escala que nenhuma equipe alcança.

Se você se retira da equação e pede "faz aí do teu jeito", ela multiplica zero. E zero multiplicado por infinito continua sendo zero, só que bem formatado.

Iatizar é isso: colocar a IA no processo. No repetitivo, no chato, no que rouba tuas horas sem usar tua cabeça. Nunca no lugar da tua digital.

E tem um segundo erro, talvez mais comum que o primeiro: terceirizar o aprendizado.

Mandar o estagiário fazer o curso. Botar o assistente pra "dar uma olhada nesse negócio de IA".

Agora lembra daquela instrução de segurança que você já ouviu dezenas de vezes no avião e nunca aplicou no negócio: se a cabine perder pressão, a máscara de oxigênio vai primeiro em VOCÊ. Depois no do lado.

Não é egoísmo, é física. Se você não estudou primeiro, você não tem repertório nem pra avaliar se o que o estagiário montou está certo. Vira refém do próprio atalho.

E se o teu dia está cheio demais pra isso, presta atenção no paradoxo: o dia está cheio justamente porque o teu processo ainda não foi iatizado, porque a parte repetitiva dele ainda sai da tua mão em vez de sair da máquina.

Na minha rotina, isso tem cara concreta. A IA tem um e-mail só dela: confere as mensagens, organiza, responde o padrão e me avisa do que só eu posso resolver.

Formulário de aplicação? Ela preenche puxando do meu segundo cérebro. Nenhum fui eu que preenchi.

Enquanto isso, meu WhatsApp segue humano de propósito, com mais de 300 mensagens não lidas. Não é que eu ignoro as pessoas: é que cada resposta minha puxa outra resposta, e esse ciclo não fecha nunca. Ali dentro eu escolhi continuar sendo eu, sem clone no meio.

É usar o artificial pra viver mais o natural. A máquina assume o processo. Eu fico com o que só eu faço.

Agora, uma coisa é concordar com a régua. Outra é aplicar ela na TUA rotina, no TEU negócio, com as TUAS ferramentas. Essa segunda parte não cabe numa newsletter.

Desafio IAtize-se, O Novo Jogo: 28 e 29 de agosto

É por isso que nos dias 28 e 29 de agosto eu vou começar essa segunda parte ao vivo, com você: o Desafio IAtize-se, O Novo Jogo.

Sexta das 19h às 21h. Sábado das 9h às 11h e das 14h às 16h.

Dois dias pra sentar junto e mapear o que no TEU processo deve ser entregue pra IA, e o que jamais deve sair da tua mão. Papo de humano pra humano; a parte técnica fica abstraída.

O ingresso Silver no lote 1, o de agora, custa R$ 38,88 (o valor cheio é R$ 438,88).

E você não sai só com os dois dias: área de membros, Teste de IAtização, materiais de acompanhamento e exercício de diagnóstico fazem parte do ingresso.

E a garantia é blindada: participou do primeiro dia e sentiu que não era pra você, devolvo sem perguntas.

Todo mundo vai continuar te mandando usar IA. A diferença é que agora você sabe onde ela entra, e onde ela nunca deve entrar.

Abraço,

Alan Nicolas ♾️
CEO, Academia Lendár[IA]

P.S. Volta na segunda frase desta edição: quem usa desse jeito acha que está na frente. Substituição tem conserto, é só mudar onde a IA entra. Achar que está na frente não tem, porque ninguém conserta o que não percebe. Você acabou de perceber. Só isso já te coloca na frente de quem ainda acha.

Materiais

📚 Livros Recomendados:

Enshittification - Cory Doctorow: O homem que batizou a decadência das plataformas explica o ciclo que transforma tudo que era bom em mingau padronizado. Você vai reconhecer o mecanismo da "média" desta edição operando em escala de internet inteira.

A Guerra Da Arte - Steven Pressfield: Existe uma força que impede você de fazer o trabalho que só você faz, e ela adora um atalho novo. Pressfield deu nome a ela décadas antes de o atalho caber num prompt.

Walden - Henry David Thoreau: Em 1854, um homem foi pro mato testar quanto de artificial dava pra cortar sem perder o essencial. A régua que ele criou lá responde melhor que qualquer thread o que fazer com o tempo que a automação devolve.

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