Um profissional de 200 mil reais senta na tua frente e pergunta: "o que você quer que eu faça?".

Você responde por alto, porque não entende do assunto dele. Ele anota, trabalha um pouco e volta com a mesma pergunta. Mais uma vez. E mais uma.

Três vezes. Um trabalho de 200 mil reais, e quem está definindo o que vai ser feito é você. Justamente quem contratou porque não sabe fazer.

O final dessa história você já conhece: você recebe exatamente aquilo que não sabia pedir. E paga achando que comprou expertise.

Agora olha a semana que a gente acabou de viver. Saiu o Grok 4.5 e, no dia seguinte, o GPT 5.6. Tem uma Copa do Mundo de verdade rolando lá fora, quase na final, e mesmo assim a minha Copa da semana foi essa.

E eu confesso: eu não dava nada pro Grok 4.5. Eu queria era o Composer 3. Até testar e ver do que ele é capaz.

Hoje o meu dia a dia roda praticamente só no combo Grok 4.5 com Codex. E o Claude, onde eu já tive três contas, saiu da rotina: devo ficar com duas, uma normal e uma da empresa, pro meu time.

Contada assim, parece troca de time por moda. Não foi. Foi teste, capacidade medida na minha mão, decisão.

E é exatamente isso que quase ninguém está fazendo. No meio desse barulho todo, é assim que eu vejo as pessoas usando IA em pleno 2026: mandando o profissional de 200 mil trabalhar, sem saber o que pedir.

Porque a IA é esse profissional. Com um detalhe pior.

Ela nem pergunta três vezes. Ela executa na primeira.

Ela não pergunta se você domina

Todo sistema de IA foi desenhado pra tratar o teu prompt como a força máxima que existe. Você manda, ela faz. Rápida, educada, confiante.

O problema: a IA executa qualquer comando com a mesma confiança, o certo e o errado. A tua competência e a tua ignorância recebem o mesmo empenho.

Isso não é defeito. É design. Ela foi construída pra te obedecer, não pra te auditar.

Por isso ela nunca pergunta se você domina o assunto antes de executar. E essa deveria ser a primeira pergunta de qualquer trabalho sério.

Pensa no teu uso dessa semana. Você já pediu um contrato sem ser advogado. Uma planilha de precificação sem nunca ter precificado nada. Um texto de vendas sem saber o que faz um texto vender.

E aceitou o resultado. Porque veio bonito, organizado, bem escrito.

Só que bem escrito não é bem decidido.

E o detalhe cruel: você não tem como saber o que está errado no que recebeu. O contrato pode ter um buraco. A planilha pode precificar no prejuízo. Você só descobre quando custar caro.

É a velha regra de quando alguém executa pra você num assunto que você não domina: você recebe exatamente o que não sabia pedir, e não tem como julgar se está bom. Com um humano caro, isso já era ruim. Com uma máquina que executa na primeira, sem perguntar, vira invisível.

Isso tem nome na ciência: efeito Dunning-Kruger, descrito pelos psicólogos Kruger e Dunning em 1999. Quem não domina um assunto não tem a régua pra medir o próprio erro.

A IA amplifica esse efeito. Ela entrega com confiança total o que você pediu com ignorância total, e ainda elogia a tua pergunta.

Por isso eu tenho uma regra: eu nunca deixo a IA controlar o que eu ainda não controlo. Primeiro eu controlo, entendo tudo o que está acontecendo, pergunto o que não entendo. Só depois eu solto.

Não é desconfiança da ferramenta. É respeito pelo tamanho dela: quanto mais poderoso o executor, mais caro sai cada comando dado no escuro.

"Como assim, Alan? Você não é programador. Como você controla um sistema que você não entende?"

Justo. E a resposta não tem nada a ver com aprender código.

Quem não digita o código e decide tudo

Eu já escrevi código na vida. Hoje eu não digito uma linha dos sistemas que eu rodo.

Eu e o Pedro não somos técnicos. Somos curiosos e não deixamos passar uma palavra que não conhecemos sem perguntar. A única diferença é repertório.

E mesmo sem digitar uma linha, nenhuma decisão dos meus sistemas passa sem mim. Nenhuma.

Teve um dia em que eu travei numa decisão de arquitetura. Assunto complexo, eu não estava entendendo nada. E era uma coisa idiota.

Aí a IA me explicou assim: imagina milhões de gavetas, cada uma com uma etiqueta de nome. Pra achar qualquer coisa, você vai de gaveta em gaveta, lendo etiqueta por etiqueta.

No outro modelo, cada gaveta tem uma cor. E existe uma lista dizendo o que mora em cada cor. Você lê a lista, vai direto na gaveta certa e abre só aquela.

Eu falei: então é isso. Eu quero a lista.

Uma decisão de arquitetura de software, tomada em segundos, por um cara que não programa. Porque chegou traduzida em uma decisão que eu entendo.

Isso não foi sorte. A primeira coisa que eu botei no meu sistema não foi nada complexo, não foi código nem score. Foi uma regra: sempre que eu quiser fazer alguma coisa, me pergunta se eu sei fazer aquilo ou não.

Se eu domino, a maior fonte da verdade sou eu.

Se eu não domino, a gente vai atrás dos padrões de quem domina. E aí a IA tem a obrigação de me traduzir cada escolha em linguagem que eu entendo: com metáfora, com exemplo prático, sem blá-blá técnico.

Hoje eu reviso sistemas inteiros desse jeito. Uma decisão por vez, sem elefantíase mental.

Ninguém aguenta um documento com 20 decisões técnicas. Uma decisão por vez, com contexto prático, qualquer dono aguenta.

Essa semana eu revisei um pacote de decisões de um sistema meu, uma a uma, com gente assistindo. Quase tudo eu ratifiquei, porque em algum nível eu já tinha decidido antes. Mudança de verdade? Uma.

E nem é preciso ler tudo de tudo. Projeto novo, tecnologia nova: eu leio cada decisão. Sistema maduro, que já provou o processo: eu leio só o que é core. A confiança vai sendo conquistada com registro, decisão a decisão. Nunca assumida por padrão.

O resultado é um sistema que faz o contrário do profissional de 200 mil: em vez de me devolver a pergunta, ele me devolve escolhas que eu consigo julgar.

Repara que em nenhum momento a resposta foi "vira técnico". A resposta foi não deixar decisão passar sem entender o que está sendo decidido.

Nesse processo eu estou fazendo três coisas ao mesmo tempo: orquestrando um sistema que eu não sei programar, aprendendo com cada decisão que me chega traduzida, e me responsabilizando por cada uma que eu aprovo.

A terceira é a mais importante. E é exatamente ela que separa quem constrói de quem acumula.

Dono é quem decide

Quando dá errado, a frase pronta é sempre a mesma: "a IA fez merda", "a IA não está pronta".

Não existe "a IA". A IA é ferramenta. É o martelo. Qualquer coisa que sai dela, a culpa é tua.

Eu sei que isso soa duro. Mas repara: é o contrário de um peso.

Quando você toma uma decisão, você se empodera. "Foi eu que decidi que meu sistema fosse desse jeito." Você assina um contrato de responsabilidade com você mesmo.

E isso faz de você dono. Dono é quem se responsabiliza, colhe o bônus e o ônus.

O inverso também é verdade, e está acontecendo em escala agora: as pessoas querem deixar a decisão pra IA e depois culpar a IA. Tem muita gente criando um monte de coisa e não sendo dona de nada.

Gerou o site, gerou o sistema, gerou o plano. Aí alguém faz uma pergunta um pouco mais funda e a pessoa trava. Porque não tomou nenhuma decisão daquilo que carrega o nome dela.

Atenção pra diferença, porque ela é fina.

Execução se delega. Eu delego sem dó: quanto mais a máquina executar por mim, melhor.

Decisão, não. A maior alavanca é você tomar boas decisões na era da IA. E alavanca não se terceiriza.

Porque a vantagem na era da IA não é ter a ferramenta. É manter a autoridade de decisão: no que você domina, você é a fonte da verdade. No que você não domina, a régua vem de quem domina, traduzida até você conseguir decidir.

Essa semana mesmo eu coloquei no ar um site com 2.614 ocupações oficiais da CBO e mais de 3 mil páginas, montado em mais ou menos 4 horas. Está no ar, dá pra conferir: profissional.ai.

Foi a primeira vez na minha vida que planejar um projeto demorou mais do que executar.

A execução era da máquina. Cada decisão era minha.

Quer testar em você? Pega qualquer coisa que você construiu nos últimos meses e pergunta: por que isso é do jeito que é?

O teu funil tem essas etapas por quê? O teu preço é esse número por quê? A tua proposta promete aquilo por quê?

E um aviso, porque a palavra engana: decidir não é achar. Preço se decide com pesquisa, estratégia, conta feita. "Eu decidi" com fato na mesa é dono. "Eu decidi" porque sim é só teimosia com assinatura.

Cada "porque eu decidi de verdade" é um pedaço que é seu. Cada "foi o que veio" é um pedaço que não é.

Onde essa conta chega primeiro

Agora aplica essa régua na parte do negócio que paga as contas: o comercial.

É onde menos se decide e mais se herda. O funil veio de um curso. O CRM veio com as etapas de fábrica. A proposta é um template que alguém passou.

Levantamentos da Gartner ao longo dos anos põem a taxa de falha de projetos de CRM entre 50% e 70%. Metade, no cenário otimista. Ferramenta comprada, decisão não tomada.

É o profissional de 200 mil de novo. Você paga, ele pergunta o que fazer, e você não sabe responder.

Tem uma definição de comercial de verdade que resume isso numa linha: "tem dono, mas não depende do dono". Dono nas decisões. Independente de você na execução.

E a saída pra decidir o que você ainda não domina, você leu lá em cima: buscar o padrão de quem domina, traduzido em linguagem de dono.

Semana que vem isso vai acontecer ao vivo, de graça. É a Semana Comercial com Claude Code: quatro lives no YouTube, de segunda a quinta (13 a 16/07), sempre às 14h.

Quatro operadores montando uma operação comercial na tua frente, decisão por decisão. Os quatro rodam operação em clientes reais nesta mesma semana: você não vai ver teoria de palco, vai ver a rotina de quem responde por resultado que não é o próprio.

Segunda, a Fran faz o diagnóstico de um processo comercial em tempo real. Terça, o Bruno transforma esse diagnóstico em pipeline vivo no ActiveCampaign.

Quarta, o Adavio monta um disparador de email e WhatsApp, usando Hermes, Telegram e Gmail, ligado nesse pipeline. Quinta, o Marcondes constrói um gerador de propostas que fecha o ciclo.

E aqui a honestidade que a tese exige: assistir não decide por você. Ninguém monta o TEU comercial numa live.

O que você leva é outra coisa: a lista de perguntas que um comercial de verdade responde antes de qualquer ferramenta.

Uma delas, que a segunda-feira responde ao vivo: se um vendedor pedir demissão na quarta, o substituto entra sabendo abrir a semana com playbook, ou você treina do zero mais uma vez?

Outra, da terça: o teu CRM tem regra de próxima ação em cada negociação, ou tem 47 paradas em "em contato" há três semanas?

Esse tipo de régua não decide por você. Ela te dá o que faltava: como julgar o que você manda fazer.

São quatro dias, sempre às 14h. Tem custo, sim. É o preço de ver decisão sendo tomada, em vez de ler resumo depois.

Se for assistir como dono, assiste com papel na mão. Não pra copiar a ferramenta que aparece na tela, mas pra copiar as perguntas que cada um deles responde antes de encostar nela.

De graça, ao vivo, no YouTube. E, como tudo que importa daqui pra frente, quem decide é você.

P.S.: Tem dois jeitos de fechar esse email. No primeiro, você continua mandando a IA executar o que você não sabe julgar, e torcendo.

No segundo, você bloqueia a agenda das 14h na semana que vem e assiste quem domina tomando as decisões que você vinha herdando.

Um caminho te mantém rápido. O outro te deixa com as perguntas certas na mão. Elas não decidem por você. Mas é com elas que você para de herdar.

Alan Nicolas ♾️
CEO, Academia Lendár[IA]

📚 Livros Recomendados:

  • Meditacoes - Marcus Aurelius: O homem mais poderoso do mundo escrevendo, à noite, um contrato de responsabilidade consigo mesmo. Nenhum livro mostra melhor o que é ratificar as próprias decisões uma a uma, sem plateia.

  • Disciplina - Jocko Willink: Um comandante de guerra tem uma resposta desconfortável pra quem culpa a ferramenta, o time ou a IA quando dá errado. É a versão militar do "dono colhe o bônus e o ônus", escrita por quem pagou o preço.

  • A Era Da Ia E Nosso Futuro Como Humanos - Henry Kissinger, Eric Schmidt, Daniel Huttenlocher: Um estadista de 99 anos, um ex-CEO do Google e um cientista discutindo a única pergunta que importa daqui pra frente: quais decisões um humano nunca deveria entregar. As respostas deles vão te incomodar.

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