Eles disseram que demorariam 10 milhões de anos para existir.

"Eles" eram os editores do New York Times. No dia 9 de outubro de 1903, o jornal publicou um editorial com um título que envelheceu mal: Flying Machines Which Do Not Fly. As máquinas voadoras que não voam.

A conta deles, feita com a melhor ciência disponível na época: uma máquina voadora levaria de um a dez milhões de anos para sair do papel.

69 dias depois, os irmãos Wright levantaram voo em Kitty Hawk.

Eu quero que você sente com esse número um segundo. Dez milhões de anos de previsão. 69 dias de realidade.

O erro deles não foi burrice. Também não foi falta de dado. Foi o conceito: olharam para uma curva exponencial segurando uma régua de linha reta.

E hoje tem gente de currículo respeitável fazendo a mesma conta, prevendo décadas para coisas que eu vejo funcionando agora, na minha frente.

Poucas coisas te fazem parecer mais idiota do que tentar prever o futuro. Então eu não vou prever nada aqui: vou te mostrar o que já está acontecendo.

Nem especialista escapa desse erro. E aqui vem a parte desconfortável desta edição: você provavelmente está cometendo uma versão dele agora.

Na sua mesa. Com um objeto que você usa todos os dias.

Chego lá. Antes, preciso te mostrar uma coisa sobre o seu cérebro.

A cegueira conceitual: a cor que você não vê

Você já passou por isso: decide comprar um carro, ou quase decide, e de repente aquele carro aparece em todo lugar. Na rua, no estacionamento, na garagem do vizinho.

O carro não se multiplicou. E o algoritmo, dessa vez, é inocente.

Esse fenômeno tem nome: frequency illusion (ilusão de frequência), batizada em 2005 pelo linguista Arnold Zwicky, de Stanford. Quando uma coisa ganha categoria na sua cabeça, o cérebro passa a deixá-la entrar. Antes disso, ele filtra.

E ele filtra porque precisa. Se o seu cérebro tivesse que processar toda a informação do mundo, ele fritava.

Eu sinto isso na pele. Tenho TDAH, e o meu filtro de fábrica veio fraco: por isso o óculos amarelo, por isso o quarto escuro quando eu preciso criar. Menos estímulo entrando, mais foco sobrando.

Agora inverte a moeda, porque ela tem dois lados. O que a gente não tem conceito, a gente não enxerga.

O que não tem categoria na sua cabeça não vira invisível no mundo. Vira invisível para você.

É isso que explica 1903. Os editores do New York Times tinham dados, tinham ciência, tinham reputação. O que eles não tinham era o conceito de voo motorizado como coisa possível. Sem a categoria, cada evidência virava ruído filtrado.

E é isso que explica 2026. A maioria de nós testou o ChatGPT em 2023, criou uma categoria ("é um chat que responde perguntas") e arquivou o assunto.

A ferramenta mudou de espécie desde então. A categoria na sua cabeça, provavelmente não.

Quem conclui que "nem é tudo isso" está julgando a IA de hoje com o teste que fez em 2023. O carro está passando na rua o tempo todo; a categoria é que ainda não existe.

Qual é a categoria que falta, então? Ela tem nome, e o nome muda o que você enxerga quando abre o computador.

Agentes de IA: o avião na sua mesa

A categoria que falta é esta: agente.

A forma certa de olhar para a IA é como um agente, não como um chat. E agência significa uma coisa só: poder executar perante ou sem você.

Um chat espera você digitar, responde e para. Um agente recebe um processo e trabalha nele enquanto você leva o filho na escola.

Mandar um documento e pedir "analisa isso para mim" é usar a IA do jeito da tiazinha do WhatsApp. Funciona? Funciona. E deixa quase toda a potência do outro lado parada: eu já chutei "menos de 1%", e assumo que é chute, força de expressão. O que dá para medir de verdade, eu te mostro dois parágrafos abaixo.

É por isso que eu venho repetindo a mesma imagem: você está usando um avião como peso de papel. O objeto em cima da sua pilha de tarefas voa. Você não sabe, então não sobe na cabine, não aperta os botões, e ele segue ali, segurando papel com elegância.

O leitor cético vai dizer: "Alan, agente de IA erra". Erra.

A METR, organização que mede exatamente isso, usa uma régua de 50% de confiabilidade. E a duração das tarefas que um agente completa sozinho nessa régua vem dobrando a cada sete meses há seis anos.

Na prática, essa régua saiu de tarefas de segundos em 2019 para tarefas de horas de trabalho humano hoje. Metade de acerto exige humano conferindo. A curva exige que você olhe para ela mesmo assim.

Duas cenas recém-saídas do forno, para tirar isso do abstrato.

Primeira: o Codex acabou de ganhar conversa por voz em tempo real. Eu testei caminhando na rua e na academia: você fala, ele ativa e gerencia agentes no seu computador enquanto responde. A sensação honesta: você se sente um Homem de Ferro com o Jarvis.

Segunda: uma pesquisadora acabou de sair da OpenAI para uma startup que transforma pensamento em texto com um headset, sem cirurgia. A aposta dela: em poucos anos, a principal interface com a IA será o pensamento.

Enquanto isso, quando alguém chega perto de declarar que a máquina generaliza, a goleira anda para trás.

Chegou a existir cláusula de contrato entre OpenAI e Microsoft, removida na renegociação recente do acordo, em que declarar AGI custava à Microsoft o acesso aos modelos seguintes. Havia incentivo jurídico para o "ainda não chegamos" durar.

Uma produtora que gravou comigo resumiu a era numa frase que eu não escrevi e assino:

A maioria dos marcos da humanidade amplificou músculo ou distância. Esta é a primeira que amplifica a única coisa que criou todas as outras.

E no mundo para onde isso aponta, quem envia o e-mail é o meu agente, e quem lê do outro lado é o agente da minha advogada.

Como assim, Alan? Deixa eu te contar o que aconteceu numa segunda-feira.

Iatização: nove horas de segunda-feira

Numa sexta-feira eu abri um processo que estava parado há dois meses na minha vida: a papelada do meu visto americano. Petições, evidências, formulários, e-mails para pessoas em três fusos diferentes.

Olhei aquilo e pensei o que qualquer pessoa pensa: isso vai ser um inferno. Meses de trabalho manual.

Na segunda-feira, às 11h da manhã, eu comecei a montar um sistema em vez de começar a papelada. À 1h da tarde parei para levar meu filho na escola. Voltei, trabalhei mais um pouco, fiquei com ele, dei mais uma trabalhada de noite.

Às 20h eu estava apresentando o sistema funcionando para uma startup do Vale do Silício.

Nove horas de relógio, com escola e família no meio. Eu não sou advogado. E o que eu montei faz, nesse processo, o trabalho chato que eu dividiria entre dois ou três prestadores: quem confere evidência, quem preenche formulário, quem caça e-mail atrás de documento.

Como assim, Alan? O desenho é menos místico do que parece.

Os documentos viraram um segundo cérebro no Obsidian, organizado pela própria IA. Os processos vieram de onde ninguém olha: se o governo exige os documentos, o próprio governo publica os processos, em PDFs de 40, 100 páginas cheios de sigla. Eu não li. O agente leu e virou fluxo.

Na segunda eram 10 fluxos. Hoje são 22, porque cada furo que aparece vira fluxo novo.

O agente confere meus e-mails a cada duas horas pelo próprio navegador. De madrugada, com o fuso a favor, ele recebeu um pedido do escritório, organizou os anexos e deixou tudo em rascunho, porque aqueles documentos eu ainda não tinha aprovado.

Autonomia com fronteira: o que eu aprovei, ele envia; o que não aprovei, ele prepara e espera.

Um formulário oficial com mais de 80 perguntas? Ele preencheu inteiro. Eu conferi.

E teve o momento que me desarmou. Ele analisou as fotos dos meus eventos e perguntou: você tem como comprovar esses prêmios que aparecem aqui? Existe uma categoria de evidência para isso.

Eu nem lembrava dos prêmios como evidência. Ele leu minhas conversas com cada organizador, escreveu cada pedido no tom de cada relação e disparou. Três cartas de comprovação já voltaram; faltavam duas na minha última contagem.

Um processo desses, na minha experiência e na dos amigos que estão no mesmo barco, leva meses. E aqui está a frase que eu quero que sobreviva ao e-mail: não leva meses porque tem que levar meses. Leva meses por causa do gap entre pessoas.

Eu já mostrei essa mesma régua funcionando no mercado da contabilidade, com o Gustavo. O nome que eu dou para isso é iatização, e a medida honesta dela cabe numa frase: eu me tirei do processo.

Hoje uns 30% desse processo do visto rodam 100% sem mim, no meu placar mais recente. E a parte chata inteira está dentro desses 30%.

Isso é relato meu, com uma amostra de um. E dobro a honestidade: as nove horas custaram nove horas porque quem sentou na cabine vive disso e já errou muito antes.

No teu primeiro voo, a mesma montagem pode levar semanas, e o agente erra em silêncio justamente no que você ainda não sabe conferir. É para isso que o rascunho de madrugada espera aprovação.

Mesmo assim, o mecanismo viaja, e não só comigo: um empresário da nossa mentoria, sem saber nada de IA, montou um sistema de contabilidade que, na minha leitura, quase nenhum contador teria tido a sagacidade de montar. O bolso que sangrava era o dele.

E eu sustento por escrito o que já repeti mil vezes: você não precisa saber programar.

"Se você tiver meio cérebro, a IA pode ser o outro meio cérebro."

A pergunta que sobra é incômoda de propósito: se o avião voa assim, por que quase todo mundo que eu conheço está com ele parado na mesa?

A hidra do excesso: projetos demais, automação de processos de menos

Pergunta direta: quantos projetos com IA você já começou?

Eu vou primeiro, porque a confissão é minha: eu já devo ter começado mais de 50. Concluí uns 10.

E olha que eu vivo disso. Agora imagina o ciclo do lado de lá, que talvez seja o seu.

A IA tira um MVP do papel em horas. O que antes era rabisco de caderno já nasce com banco de dados e tela bonita. O cérebro recebe a dopamina de progresso e pede mais.

Aí o limite de uso reseta e vem aquela voz: agora vai, agora termina. Passa uma semana. Você decide que o problema era o banco de dados e estuda banco de dados. Depois decide que era o design e refaz o design.

Aí sai um modelo novo, você pede para ele analisar seu código, ele acha um monte de coisa errada, e o projeto ganha uma cara nova.

Agora sim vai. De novo.

Eu chamo esse bicho de hidra do excesso: cada projeto que você corta, nascem dois no lugar.

E então chega a pergunta que ninguém posta na internet: cadê o dinheiro? Cadê o teu projeto estourando de usuário? Cadê o tempo livre que a ferramenta prometia?

Repara no paradoxo, porque ele é o retrato desta era: a tecnologia que existe para devolver tempo é a mesma que está fazendo um monte de gente competente trabalhar MAIS do que antes.

A culpa não é preguiça nem burrice, e esse ponto importa. Com o conceito de chat, você continua sendo o processo. Cada projeto novo depende de você digitando, conferindo, empurrando. Mais projetos, mais loops, e todos moram dentro de você.

Agente inverte a seta: o processo passa a rodar, e você entra onde decide entrar. No meu caso, a regra que me salvou foi dupla. Piloto na rua o quanto antes, antes do painel bonito. E clareza acima de tudo, porque quando eu tenho clareza, eu consigo agir; quando não tenho, sinto preguiça.

Falta uma peça nessa conversa: o relógio.

O seu 2019: o relógio das previsões de tecnologia

Eu fiz essa conta uma vez: R$ 100 mil investidos na Nvidia em setembro de 2019 teriam virado algo na casa dos R$ 5,5 milhões. Na poupança, os mesmos R$ 100 mil virariam uns R$ 148 mil.

Números aproximados. A pergunta que sai dessa conta é que não é brincadeira.

2019 foi há sete anos. Em 2030, do que você vai se arrepender de não ter feito em 2026?

E antes que isso pareça conversa de investimento: eu tô dizendo para investir em você, porque não tem investimento maior. Investir em você, aqui, não é comprar curso. Falo do que você vai fazer de diferente com o que já está na sua mão.

Porque desta vez o relógio corre diferente. O trator levou décadas para mudar o campo, porque precisava de fábrica e transporte. O carro esperou estradas e postos. A internet esperou cabo, modem e madrugada de pulso único.

A IA chegou num mundo que já tem infraestrutura para ela rodar. Celular e internet. E mesmo se tudo parasse de evoluir hoje, o que já existe já reorganiza o trabalho de quem chegou primeiro. Não por teoria: você acabou de ler nove horas de uma segunda-feira.

O que eu fiz nesta edição foi a etapa um: entender o jogo, ver o avião onde te disseram que havia um peso de papel. A etapa dois é outra conversa, mais individual: com a SUA bagagem, o que faz sentido construir primeiro. Essa conversa eu vou ter ao vivo, no sábado, com o pessoal que estiver junto.

8.8, A Nova Era do Digital: sábado, 8 de agosto, às 19h

8.8, A Nova Era do Digital. Sábado, 8 de agosto, às 19h, no YouTube. 100% gratuito.

Aviso honesto de público: é para quem já tem operação rodando, com time, cliente e receita; quem está começando do zero vai aproveitar menos.

E transparência de quem convida: a UTM deste link diz lançamento, porque o 8.8 abre uma temporada nossa. A live é gratuita e inteira em si: dá pra assistir, levar a etapa dois embora e decidir depois se quer continuar por perto.

Se 19h de sábado apertar para você, o cadastro já deixa você recebendo os avisos e instruções por e-mail e WhatsApp.

Sem countdown, sem porta fechando. Uma porta aberta, e você decide se entra.

O editorial de 1903 envelheceu em 69 dias. O de 2026 está sendo escrito agora, em algum feed perto de você, por alguém garantindo que "nem é tudo isso".

Ou você cria as regras, ou segue as regras de quem viu primeiro. Eu prefiro criar as minhas.

Sábado, 19h. Não sejam os caras de 1903.

Alan Nicolas ♾️
CEO, Academia Lendár[IA]

P.S. A pergunta que fica não é o que a IA consegue fazer. É o que você anda pedindo para ela. Abre o histórico do teu chat e olha as últimas dez conversas: se quase todas forem alguma versão de "analisa isso para mim", você acabou de encontrar o peso de papel. O avião decola do tamanho do pedido.

Materiais

📚 Livros Recomendados:

  • Darwinismo Digital — Tom Goodwin: Goodwin cataloga por que empresas competentes instalam tecnologia nova dentro do processo velho e chamam isso de transformação. O capítulo que dói é o que explica por que elas só percebem o erro depois que o concorrente redesenhou a categoria inteira.

  • O Ego E Seu Inimigo — Ryan Holiday: Existe um motivo pelo qual o especialista erra mais feio que o iniciante, e não é falta de informação. Holiday descreve o mecanismo que faz alguém defender a própria categoria mental muito depois de ela ter morrido.

  • Nexus — Ramez Naam: Ficção sobre uma tecnologia que chega antes de existir palavra para ela, e sobre o que as instituições fazem quando precisam legislar o que não conseguem nomear. Você vai reconhecer o roteiro rodando na sua timeline esta semana.

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  • Escrita por: Alan Nicolas utilizando Obsidian potencializado com IA

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