A pergunta que eu mais recebo é qual é a melhor IA.
Faz três anos que eu respondo essa pergunta e faz três anos que ela está errada. Não porque não exista diferença entre elas. Porque a resposta muda a cada seis semanas, e a sua rotina não pode mudar a cada seis semanas.
Existe uma pergunta que envelhece melhor: nesta tarefa aqui, quem executa, quem confere e quem aprova?
Repare que nenhuma das três é o nome de um produto.
Como escolher qual IA usar: as quatro grandezas do ETCAR
Quando eu escolho quem faz o quê, eu não olho preço. Eu olho quatro coisas ao mesmo tempo:
Quanto custa. Quanto tempo leva. Que qualidade sai. E quantas vezes eu vou ter que voltar e pedir de novo.
A quarta é a que quase ninguém mede, e é a que come o dia.
Uma tarefa barata que exige oito idas e voltas custa mais que uma tarefa caríssima que sai de primeira. Você não paga em dinheiro, paga em tarde perdida. E como esse custo não aparece em nenhuma fatura, ninguém soma.
A régua não é minha invenção, ela já existia antes de eu chegar. O que é meu é o jeito de não esquecer dela: eu penso num ET dirigindo um carro. ETCAR. Bobo o suficiente pra você nunca mais esquecer, e é esse o objetivo.
Ser o melhor em executar não é ser o melhor em conduzir
Eu passei os últimos dois meses testando uma coisa específica: quem manda em quem.
Botei o mais forte de todos pra conduzir os outros. Ele conduz bem, é bom nisso. E foi a pior escolha que eu podia ter feito, porque conduzir é o trabalho que mais consome, e ele é o mais caro de todos. Queimou a conta antes de terminar.
Depois eu botei um mais rápido e mais barato conduzindo o mais forte. Funcionou melhor, e não porque ele seja melhor. Porque conduzir e executar cobram coisas diferentes.
São duas decisões e a gente trata como se fosse uma. Você escolhe a ferramenta mais forte na tarefa e entrega tudo pra ela: fazer, revisar, decidir. Só que quem executou está comprometido com o que produziu. Ninguém encontra o próprio erro com a mesma vontade com que encontra o erro do outro.
Por isso eu raramente aceito a resposta final de um único modelo. Eu gosto que um discorde do outro e tenha que provar.
O protocolo desta semana é isso virado em processo, pra você fazer sem precisar de três assinaturas.
Nesta edição:
O que ele faz: o Protocolo ETCAR pega uma tarefa sua, quebra em etapas, decide quem executa e quem confere cada uma, escreve o critério de pronto antes de começar, e termina num dossiê que exige você digitar o seu nome pra aprovar.
Como usar: é texto. Você cola num chat de IA, qualquer um, na versão gratuita. Não tem link pra abrir, não tem cadastro, não tem instalação.
Como ele pensa
São quatro colagens, uma por conversa:
Bloco 1, o mapa. Ele não executa nada aqui. Ele planeja: as etapas, as quatro grandezas de cada uma, quem faz, quem confere, o critério de pronto e o que fazer quando der conflito.
Bloco 2, executa. Entrega o resultado e mais duas listas que quase nenhum prompt pede: o que ele teve que assumir, e onde faltou informação. É onde as invenções aparecem antes de virarem problema.
Bloco 3, confere. Em conversa nova, obrigatoriamente. Ele recebe só o critério de pronto e o trabalho, sem o raciocínio de quem fez. E ele tem que percorrer o critério item por item citando o trecho que cumpre cada um. Item sem trecho pra citar não passa.
Bloco 4, aprova. Monta o dossiê e para. Se a decisão não dá pra desfazer, escreve IRREVERSÍVEL na primeira linha. E pede o seu nome.
A conversa separada não é firula. Na mesma janela, quem confere já leu o raciocínio de quem executou, e concorda com ele. É o mesmo pensamento se olhando no espelho.
Por que fazer na mão antes de automatizar
Você vai olhar os quatro blocos e pensar que dá pra automatizar isso.
Dá. Eu automatizei. Hoje eu converso com uma só e ela chama as outras, despacha, reúne, compara e me devolve pronto. Já falei disso aqui e vou falar mais.
Mas não foi assim que começou, e se eu te entregasse a versão automática hoje ela não ia funcionar na sua mão.
Por dois meses eu fiz isso no braço. Ficava mandando o comando de um pro outro. Não gostei disso, manda pro outro. Copiava e colava prompt, copiava e colava documento, abria janela nova pra ver se a resposta se sustentava sem o histórico. Foi tedioso e foi caro.
Só que era ali que eu estava aprendendo.
Fazendo na mão você sente qual etapa quebra. Você vê o conferente pegar uma coisa que você tinha aceitado sem olhar. Você erra a estimativa de quantas idas e voltas uma tarefa ia dar, erra de novo, e na quinta vez acerta. Nenhuma automação te ensina isso, porque ela faz por você exatamente a parte que você precisava sentir.
Hoje eu não preciso mais pensar nisso. Eu fiz tantas vezes manualmente que virou normal.
É essa a ordem. Primeiro entender, na mão, com o incômodo todo. Depois automatizar, se ainda fizer sentido. Quem inverte compra uma máquina que não sabe operar, e quando ela erra não tem como perceber.
Então não trate estes quatro blocos como o produto final. Eles são o treino.
O que muda quando você para de ser o executor
Quando você sai do loop de ficar copiando e colando, uma coisa estranha acontece.
Você para de ser o executor.
E isso é uma mudança total de trabalho, porque a gente foi treinado a ser executor a vida inteira. A sensação de produtividade vinha de estar com a mão na massa. Agora a mão sai da massa e sobra você, por cima, tendo que pensar melhor e decidir melhor. É desconfortável, e quase ninguém fala disso.
Semana passada eu cheguei tarde num hotel em Natal, depois de uma palestra, e o único lugar aberto era um bar. Tinha um aluno meu lá. Uma da manhã, os dois conversando exatamente sobre isso.
Ele ganhou produtividade de verdade, a empresa dele cresceu. E me contou que às vezes ficava sem saber o que fazer com o tempo que sobrou.
Guarda isso, porque vai acontecer com você. E o risco não é ficar sem fazer nada: é encher o espaço vazio com mais projeto sem sentido, só pra não sentir o vazio.
O tempo que sobra é o resultado. Não é o intervalo entre duas coisas.
O manual, e quando NÃO usar isto
O portão de entrada, que é a parte mais importante: se a IA entregar o resultado e você conseguir olhar e saber na hora se está certo, não use este protocolo. Converter um arquivo, encurtar um texto, achar um número numa planilha: pede, olha, aceita. Conferência em cima de coisa óbvia é desperdício.
Ele serve pro que só quebra depois. Uma estratégia, um plano, uma análise, um texto que vai sair pra fora.
O que ele ataca: a decisão que você tomou no automático porque a resposta veio bem escrita.
O limite, dito na cara: o prompt não bloqueia nada fisicamente. Se você colar o Bloco 3 na mesma conversa e a IA não perceber que já viu aquele trabalho nascer, a conferência sai contaminada e nada te avisa. Ele pede que ela declare, e ela costuma declarar, mas quem garante a janela nova é você.
O aviso que vale ouro: a assinatura do Bloco 4 não é enfeite. Escreva o nome e a data você mesmo, com a mão, no fim do documento que vai sair. Decisão sem essa linha é decisão que ninguém tomou, e quando der ruim não vai ter a quem perguntar.
COMO USAR
Não tem instalação. Não precisa pagar. Não tem link.
Abre o chat de IA que você já usa.
Copia o Bloco 1 aqui de baixo e cola.
Preenche as duas linhas entre colchetes com a sua tarefa.
Segue os blocos na ordem, abrindo conversa nova onde ele pedir.
O que ele exige não são três contas. São quatro conversas.
Agora é com você
Roda uma vez esta semana, numa tarefa real. Não numa hipotética, numa que está na tua semana e que você não sabe conferir de olho.
Vai ser mais lento que fazer do jeito de sempre. É esse o ponto.
Os quatro blocos estão logo abaixo, inteiros, e você usa hoje sem depender de mais nada.
O que eles não fazem é olhar o teu caso: a tua rotina, o teu negócio, a decisão que você tem que tomar na quarta-feira. E não te acompanham na travessia de sair de executor pra quem decide, que é a parte que dói e a parte que ninguém atravessa sozinho.
Essa é a parte que não cabe num prompt. Nos dias 28 e 29 eu faço ela ao vivo, com a tua rotina na mesa.
E clicando ou não, o protocolo está logo aqui embaixo, inteiro. Copia e usa.
Mão na massa
Aqui está, inteiro. Quatro blocos, na ordem, e cada um diz quando abrir conversa nova.
Começa colando o Bloco 1. Os outros três esperam.
BLOCO 1: O MAPA
Conversa 1. Cola, lê, e para.
Você é o ROTEADOR desta tarefa. Você não executa nada neste bloco. Você monta o plano.
MINHA TAREFA:
[escreva aqui, terminando com o resultado que você quer ter na mão no fim]
QUANTAS IAs EU TENHO: [uma, ou mais de uma]
FAÇA ISTO, NESTA ORDEM:
1. Quebre a tarefa em no máximo 5 etapas. Cada etapa termina num resultado que
eu consigo olhar e dizer pronto ou não pronto. Se a tarefa não couber em 5
etapas, ela é grande demais para uma rodada: diga isso e me proponha só a
primeira parte.
2. Para cada etapa, estime as quatro grandezas ANTES de decidir qualquer coisa.
Chute redondo serve, mas tem que estar escrito:
CUSTO: alto, médio ou baixo
TEMPO: minutos, horas ou dias
QUALIDADE: forte, mediana ou fraca nesta etapa
INTERAÇÕES: quantas vezes eu provavelmente vou ter que voltar e pedir correção
A quarta decide quase tudo. Uma etapa barata que exige oito idas e voltas
custa mais que uma etapa caríssima que sai de primeira.
3. Separe duas coisas que não são a mesma: quem EXECUTA a etapa e quem CONFERE
a etapa. Ser o melhor em fazer não é ser o melhor em conferir. Quem executou
está comprometido com o que produziu.
Fale em papel, nunca em nome de ferramenta: PASSADA 1 executa, PASSADA 2
confere. Se eu tenho uma IA só, as duas passadas são a mesma IA em conversas
separadas. Não invente ferramenta que eu não tenho.
4. Marque as três decisões que são minhas e que você não pode tomar em nenhum
momento:
o objetivo (o que conta como sucesso)
o risco (o que acontece se der errado)
a autorização (a decisão que não dá para desfazer)
5. Escreva o CRITÉRIO DE PRONTO da tarefa inteira, em uma frase, com no máximo
três itens verificáveis. Se você não consegue escrever, a tarefa está mal
definida: diga isso e pare, em vez de continuar.
6. Escreva a REGRA DE CONFLITO: se a conferência reprovar, o que exatamente
refazer, e o limite é de duas rodadas. Na segunda reprovação no mesmo ponto,
você para e me chama. Não existe terceira.
SUA RESPOSTA, nesta ordem, e nada além disto:
A. Uma linha por etapa, com: etapa, custo, tempo, qualidade, interações,
passada que executa, passada que confere. Se não couber em tabela na minha
tela, escreva em lista, uma etapa por bloco.
B. CRITÉRIO DE PRONTO, uma frase
C. REGRA DE CONFLITO
D. As três decisões que são minhas, e em que etapa cada uma aparece
E. O QUE VOCÊ PRECISA DE MIM ANTES DE COMEÇAR, em perguntas numeradas. Se não
precisa de nada, escreva NADA A PERGUNTAR.
Não comece a executar. Pare aqui.Se a letra E vier com perguntas, responda ali mesmo, nesta conversa, e peça o plano corrigido. Você só sai da Conversa 1 com um plano cuja letra E está vazia.
O que você leva daqui: as letras A, B, C e D.
BLOCO 2: EXECUTA
Conversa nova, do zero.
Esta é a PASSADA 1, a que executa. Você é o EXECUTOR. Você faz as etapas do
plano abaixo, na ordem, e nada além delas.
PLANO:
[cole aqui as letras A, B, C e D da Conversa 1]
REGRAS:
Entregue o resultado, não a explicação do resultado.
Onde você teve que assumir algo que eu não disse, escreva no fim, numa lista
chamada SUPOSIÇÕES, uma linha cada.
Onde faltou informação, não preencha com o que soa bem. Escreva LACUNA e diga
o que falta.
Não avalie o seu próprio trabalho. A avaliação é de outra conversa.
Quando bater em objetivo, risco ou autorização, pare e me pergunte.
SUA RESPOSTA:
1. O RESULTADO
2. SUPOSIÇÕES
3. LACUNASBLOCO 3: CONFERE
Conversa nova, do zero. Esta é a regra que não pode ser quebrada. Na mesma conversa do Bloco 2, quem confere já leu o raciocínio de quem executou, e a conferência não vale nada.
Esta é a PASSADA 2, a que confere. Você é o CONFERENTE. Alguém entregou este
trabalho e eu preciso saber se presta antes de eu assinar.
Primeiro, uma checagem. Se você já viu este trabalho sendo produzido nesta
mesma conversa, escreva CONVERSA CONTAMINADA e não confira nada. Eu abro outra
e volto.
CRITÉRIO DE PRONTO:
[cole a letra B da Conversa 1]
O TRABALHO:
[cole os três itens que a PASSADA 1 produziu: resultado, suposições e lacunas.
Nada além desses três.]
REGRAS:
Seu trabalho é achar o que está errado, não elogiar o que está certo. Elogio
só entra para explicar por que uma parte específica pode ficar como está.
Toda reprovação vem com o trecho exato e com o que exatamente falha nele.
"Está superficial" não é reprovação, é impressão.
Separe três coisas e não misture:
ERRADO (está factualmente furado)
FALTANDO (o critério de pronto pede e não tem)
FRÁGIL (passa, mas cai se alguém perguntar)
Antes de dizer que está tudo certo, percorra o critério de pronto item por item
e cite o trecho do trabalho que cumpre cada item. Item sem trecho para citar é
FALTANDO, não é aprovado.
SUA RESPOSTA:
1. VEREDITO: aprova, aprova com ressalva, ou reprova
2. ERRADO, FALTANDO e FRÁGIL, com o trecho de cada
3. Se reprovou: a lista do que refazer, uma linha por itemBLOCO 4: APROVA
Conversa nova. Só entra aqui com veredito de aprova ou de aprova com ressalva. Este bloco existe para você não assinar no automático.
Você vai montar o dossiê desta decisão. Você não decide nada aqui e não aprova
nada aqui.
O QUE FOI FEITO:
[cole a última entrega, a que foi aprovada]
O QUE O CONFERENTE DISSE:
[cole o veredito e as ressalvas]
MONTE ASSIM:
1. A DECISÃO em uma frase, começando com "Você está aprovando que..."
2. O QUE ISSO IMPEDE OU DESFAZ. Se não dá para voltar atrás, escreva
IRREVERSÍVEL em maiúsculas na primeira linha.
3. AS RESSALVAS QUE FICARAM DE PÉ, uma por linha. Se o conferente aprovou com
ressalva e ninguém consertou, elas aparecem aqui.
4. O QUE EU AINDA NÃO SEI e que seria bom saber antes de eu assinar.
5. Por último, esta linha e mais nada:
"Para aprovar, escreva abaixo o seu nome completo e a data de hoje. Se você
não quiser escrever, é porque ainda não está pronto."
Não aprove por mim. Não escreva meu nome. Não continue depois disso.A assinatura não é enfeite. Escreva o nome e a data você mesmo, no fim do documento, do e-mail ou do arquivo que vai sair. Decisão sem essa linha é decisão que ninguém tomou.
Rodada 2
Reprovou. Nada volta para trás aqui. O que a PASSADA 1 entregou está fechado, e o que começa agora é uma rodada nova.
Abra uma conversa nova. Cole o Bloco 2 outra vez, com o mesmo plano, e acrescente no fim:
ISTO É A RODADA 2. A entrega anterior foi reprovada nestes pontos:
[cole só a lista do que refazer, o item 3 da conferência. Não cole o veredito
inteiro, não cole os elogios.]
Refaça só o que está nesta lista. O resto está fechado.Depois, conferência de novo, em conversa nova.
Segunda reprovação no mesmo ponto: pare. Não mande uma terceira. Duas reprovações no mesmo lugar quase nunca são falha de execução, são o critério de pronto que estava mal escrito. Volte para o Bloco 1 e reescreva o critério.
Onde isso trava
Você não escreveu o critério de pronto. É o passo que todo mundo pula e é o único que faz o resto funcionar. Sem ele, conferir é chutar.
Você rodou tudo na mesma conversa. Aí o conferente concorda com o executor, porque é o mesmo raciocínio olhando para ele mesmo.
Você contou só o custo. A grandeza que mais pesa é o número de vezes que você teve que voltar e pedir de novo. Quase ninguém mede essa, e é ela que consome o dia.
P.S. Não clicou no botão? Então faz só isto: pega a tarefa mais chata que está na tua semana, cola o Bloco 1 e vê o que ele te devolve. Se ele disser que a tarefa é óbvia demais pro protocolo, ótimo, você economizou uma hora. Se ele escrever o critério de pronto que você nunca escreveu, você acabou de descobrir por que aquela tarefa nunca fica pronta.

