Eu já demiti alguém por uma resposta.

Era um advogado que trabalhava pra mim. Eu pedi uma análise e ele me mandou um texto.

Li e soube na hora que não era ele escrevendo ali.

Ele jogou o meu pedido no chat, copiou o que a IA respondeu e me mandou como se fosse dele. Nem o jeito de escrever ele ajustou.

Não me incomodou o uso da ferramenta. Me incomodou que ele não estava dentro daquela resposta.

Repara que eu não precisei de detector, de software, de nada. Bastou ler. O texto tinha a forma da máquina e estava vazio de gente.

E não é só que dá pra perceber. Você manda pra frente uma coisa que não pensou e não conferiu. Isso não é certo com quem recebe.

Isso já chegou pra você também, e você não precisa ser advogado pra reconhecer.

A resposta de um fornecedor com uma página inteira pra uma pergunta que cabia numa linha, e você chega ao fim sem saber o que ele respondeu. O relatório do time que explica o problema, explica de novo com outras palavras, e nunca diz o que fazer.

É muita coisa escrita e quase nada dito. A máquina não sabe não escrever, então escreve tudo. Quem não revisa manda tudo.

Você não conseguiria provar. Mas você sabe.

Você reconhece isso quando chega na sua mão. E quando sai da sua mão, quem reconhece?

Agora o medo contrário, o de quem assina o documento e responde por ele. E se a IA inventar? Como é que eu me certifico de que aquilo que ela me trouxe é verdade?

O medo é justo. A máquina não tem nada em risco, então inventa sem constrangimento nenhum. Muitas vezes o que sai é coerente. Nem sempre é verdade.

E já custou dinheiro. Em março, o Tribunal Superior do Trabalho multou empresa e advogado em 1% do valor da causa por citar jurisprudência que não existia.

Em junho, o Tribunal de Justiça do Paraná multou por litigância de má-fé pelo mesmo motivo, e mandou ofício pra OAB.

Nos dois casos, quem pagou não foi a máquina. Foi quem mandou sem conferir.

Repara que os dois medos parecem opostos e têm a mesma raiz. Quem manda o que a máquina cuspiu não conferiu. Quem não usa, com medo de invenção, também não sabe conferir.

O que falta nos dois é a mesma coisa. Uma trava que obrigue a máquina a mostrar de onde tirou o que disse.

Tem advogado que já trabalha com essa trava montada, e com uma equipe tão pequena que os colegas riem quando ele diz o tamanho.

IA na advocacia: usar não é dominar a ferramenta

Uma pesquisa da OAB de São Paulo ouviu mais de 1.800 operadores do Direito: 77% usam IA com frequência. No ano anterior eram 55%.

Repara na palavra frequência. Não é ter experimentado uma vez pra ver como era.

E é aí que está o problema, porque usar virou o piso, não o diferencial.

Uma coisa é abrir o chat, jogar um documento lá dentro e ver o que volta. Outra é sair de lá com processo ganho, com dinheiro na conta, com gente que você não precisou contratar.

A maioria não está dominando a ferramenta. Está dominada por ela. Depende sem saber pedir, aceita o que vier e chama isso de usar IA.

Deixa eu te mostrar a diferença com um número.

Um aluno meu, o Luiz, é advogado e montou o escritório dele há 15 anos. Boutique, na palavra dele: mais nichado, ticket melhor, atendimento personalizado. E volume alto.

São 70 empresas na carteira, que em média demandam de cinco a seis mil processos ativos. Uma média de 120 publicações por dia, o que quer dizer 120 processos que andam e exigem alguma coisa, todo santo dia.

Quem é advogado já parou de ler aqui pra fazer a conta.

Tudo isso com quatro advogadas no operacional. Quatro.

Quando ele diz esse número em público, todo mundo ri e responde que é impossível. Porque tem colega com dez advogados no escritório pra tocar menos de mil processos.

Então a pergunta é o que ele faz que os outros não fazem. E a resposta não é "ele usa IA", porque os outros também usam. Três em cada quatro usam.

A resposta é o que existe atrás do uso dele.

Processos jurídicos com IA exigem skills e revisão humana

A resposta é curta, e é a regra da casa dele. Todo trabalho que se repete deixa de ser tarefa e vira uma habilidade instalada na máquina.

Não é pedir de novo toda semana. É a rotina virar uma peça que executa sozinha, do mesmo jeito.

Só que ele emenda uma segunda parte, e é ela que separa o escritório dele do escritório que vai tomar multa. Em cima de tudo isso, sempre tem revisão humana.

Ele resume assim. Sem revisão humana, você tem um cão correndo sem coleira.

E aqui está a resposta dele pra pergunta da invenção. Não é confiar mais. É a forma como você pede. Você pede pra ela validar, e cria a trava que obriga ela a provar de onde tirou a informação.

E as travas são literais. A máquina não pode afirmar nada sem provar de onde tirou. No meu caso é documento linkado, origem conferida, ou não passa.

E aí vale a imagem que eu uso, e que o Luiz me devolveu melhor do que eu falei. A IA é um labrador numa sala de cristal. Faz tudo pra te agradar, num loop que não acaba. Sem coleira, ela derruba a sala inteira te agradando.

Agora os números, que são a parte que faz o pessoal parar de rir.

Quando ele sabe pedir a pesquisa de tese e o cruzamento com legislação, o que antes tomava dias vira coisa de dez, quinze minutos. Petição limpa, tópicos organizados, o que era chato e demorado sai pronto.

Só isso, sem entrar em automação nenhuma, ele estima em quase 60% do tempo operacional economizado. É a conta dele, não uma medição minha.

E tem a peça que eu não consigo tirar da cabeça. Uma advogada do time fez em menos de 10 minutos um recurso de revista, que é a peça que vai pro tribunal superior. Quem é advogado sabe o tanto que isso é complexo. Leva três dias no mínimo, só de comparar decisões antigas uma por uma.

Repara que os dez minutos não são o feito. O feito é que aquilo deixou de ser sorte e virou rotina, porque cada hábito repetido virou uma habilidade instalada.

E foi assim que ele venceu a resistência do time. Não foi discurso nem treinamento. Foi mostrar o resultado e dizer: faz o teste, olha a resposta.

Hoje, ele diz, não vivem sem.

Agora a conta que ninguém publica junto com esse tipo de número. O operacional era de sete advogadas. Hoje é de quatro. As três saíram durante a entrada da IA, e as vagas não foram repostas.

Quem ficou passou a ganhar mais.

Se você é a equipe, e não o dono, lê essa conta duas vezes. Por que as três saíram, ele não conta. O que ele conta é que, depois que saíram, as cadeiras não foram ocupadas de novo.

A conta que ele usa pra explicar a escala é simples. Dez agentes abertos no computador dão mais ou menos dez funcionários. Se cada uma abre cinco, quatro advogadas viram vinte. Ele diz mais ou menos, e eu deixo o mais ou menos de pé.

Só que se você parar aqui, e é onde quase todo mundo para, você copia as ferramentas dele e não copia o resultado.

Porque tem uma etapa antes de tudo isso, e o Luiz fez ela primeiro.

Persona antes das skills: como a IA passa a refletir seu critério

A etapa é essa, e ela inverte o que quase todo mundo faz.

Antes de montar qualquer habilidade, o primeiro trabalho dele foi treinar a máquina pra ter a mente dele. Pra pensar como ele e escrever como ele.

Só depois disso é que vieram as skills.

E o que ele pediu é maior do que parece. Ele pediu uma máquina melhor do que ele, mas com as recusas dele dentro.

Não é clonar a assinatura nem o jeito de falar. É clonar a matriz de raciocínio. Como você decide, o que você recusa, onde você desconfia.

Primeiro a pessoa. Depois as habilidades. Nessa ordem.

Eu não tenho como medir quanto dos números lá de cima veio dessa ordem e quanto veio da ferramenta. O que eu tenho é a sequência, e ela é copiável.

Eu faço igual. Tenho um clone meu, uma IA treinada pra pensar como eu, que analisa e escreve documentos por mim. Ela pensa com as minhas heurísticas e escreve com a minha forma, extraída de muito conteúdo meu.

E quando o assunto exige precisão, não deixo um só trabalhando. Um escreve, outro faz de advogado do diabo e desconfia de tudo, um terceiro confere se o segundo não foi duro demais.

Eu já escrevi aqui, em fevereiro, que é processo primeiro, IA depois. Hoje eu recuo mais um passo. Pessoa antes do processo, e por isso antes da skill.

Por que a ordem importa tanto? Porque a habilidade sem a pessoa é a média com a sua cara. A ferramenta faz bem o que muita gente já fez.

Se você dá pra ela a tarefa antes de dar quem você é, o que sai é um texto vazio de gente saindo da sua caixa de saída.

E não é papo de gente de tecnologia. O Luiz não é programador, mesmo que hoje ele mesmo monte as próprias coisas.

Começou abrindo um chat pra perguntar e outro pra executar o que o primeiro respondia. Foi assim até chegar numa conta que ele resume em quatro palavras. Todo pedido tem pessoalidade, objeto, tarefas e resultado, e a pessoalidade vem primeiro.

Volta na resposta que abriu esta edição. O advogado que eu demiti tinha a ferramenta. Tinha a tarefa. O que faltava no texto era ele.

E tem gente do outro lado do balcão que já aprendeu a ver a diferença.

Quando o cliente usa IA para questionar o trabalho do advogado

E tem uma dor nova no meio disso, que eu duvido que seja só de advogado.

O cliente chega com a IA genérica dele na mão. Quer revisar o documento do advogado, ou quer explicar pro advogado como se faz o serviço jurídico, em vez de deixar o profissional trabalhar.

O cliente dele não chega mais perguntando. Chega comparando.

E aí vem a objeção que apareceu na minha cabeça. Se o trabalho fica rápido demais, o cliente não vai achar que vale menos?

Na verdade está ganhando valor, não perdendo. O cliente nunca comprou o tempo que você levou.

O que o cliente compra é a demanda resolvida. Se você prometeu trinta dias e entregou antes, ele fica mais grato.

Chama isso de visão reversa. Eu já vi caso apontando pro contrário, então não vou fingir que essa conta está fechada.

Só que tem uma parte que a máquina não tomou pra ela. A dor do escritório hoje ainda é o atendimento humano, que é ligar pro cliente e falar com o cliente.

O cliente percebe quando o trabalho é bom. E também percebe quando não tem ninguém dentro dele. Foi isso que me fez demitir o advogado.

Pesquisadores de Stanford, junto com o BetterUp Labs, deram nome ao que acontece quando a pessoa pula tudo isso. Chamaram de workslop, o trabalho feito com IA que parece bom e não tem nada dentro.

Perguntaram a 1.150 trabalhadores americanos. 40% receberam uma dessas no último mês, e cada uma custou em média 1h56 de quem recebeu.

42% passaram a ver quem mandou como menos confiável.

É pesquisa autorrelatado dos EUA e eu não vou esticar o número pro Brasil. Mas a mecânica é a mesma na sua caixa de entrada.

Eu já escrevi aqui sobre ter o nome embaixo do que você entrega. O Luiz diz em uma frase que quem assina é ele, e que por isso tem vinte vezes mais responsabilidade de olhar o que sai.

Faz a conta na sua mesa. Aquela resposta que eu abri me custou o tempo de ler. Pro advogado, custou o emprego.

E dá pra descobrir em dez segundos de que lado dessa conta você está.

Como avaliar uma resposta feita com IA em dez segundos

Eu comecei uma empresa de IA em 2023 e até hoje tenho programadores meus que usam menos do que poderiam. É o mesmo defeito do advogado que eu demiti, só virado do outro lado. A ferramenta na mão e a pessoa fora do uso.

Usar todo dia é a mesma coisa que dizer que você escova o dente todo dia. Mas você escova bem?

Agora o teste. Na semana passada eu te pedi dez segundos pra um verbo. Hoje são dez segundos pra uma frase, na última coisa que saiu da sua mão: um e-mail, uma proposta, um parecer, um post.

Lê procurando uma coisa só. Uma frase que só você diria. Uma escolha de palavra, uma opinião que te custou, um jeito de fechar que é o seu.

Se achou, repara em que parte do texto ela está. Essa parte é a que o seu cliente, ou o seu chefe, reconhece como você. É a que a resposta do advogado não tinha.

Se não achou, não apaga nada. Só responde pra você mesmo, em silêncio. O que a ferramenta recebeu de você antes de receber a tarefa?

E se essa frase não aparece nem nos textos que você escreveu sem IA, o primeiro trabalho vem antes da máquina.

E isso eu venho dizendo há tempo, de um jeito ou de outro. A ferramenta alavanca o que você já tem, e alavanca zero quando não tem nada embaixo.

Vira referência quem tem repertório, interesse e vontade de resolver o próprio problema. A máquina não conecta esses pontos. Ela multiplica a conexão que já foi feita.

Se você entrega a tarefa antes de ter o que alavancar, ela devolve a média. Não porque é ruim, mas porque não recebeu nada seu pra multiplicar.

Eu tenho uma regra pra isso. Não adianta tentar fazer tudo. Eu chamo de 0,8%: é menos de 1% do que você faz, e é a parte que, se você mexer, muda todo o resto.

O 0,8% aqui não é uma tarefa. É você.

E instalar isso não cabe numa newsletter.

Mentoria de IA: aplicação e sistematização no seu negócio

Eu abri uma Mentoria pra isso.

São 90 dias, com três encontros ao vivo por semana: um Laboratório de 90 minutos, um Destravamento de 60 e uma Clínica de 90.

Ela começa com um diagnóstico e um mapa de desenvolvimento, e só depois entra na arquitetura e na implementação.

É o mesmo movimento que eu defendi aqui em cima. Primeiro quem você é, depois o que construir.

Por dentro, roda um ciclo de seis etapas, percorrido três vezes: Repertório, Retrato, Priorização, Arquitetura, Implementação, Orquestração.

Repara qual é a primeira. Repertório vem antes de arquitetura e antes de implementação. Se o seu 0,8% ainda é repertório, é por ali que começa, não pela ferramenta.

Junto vêm a trilha de estudo que a IA monta pra você, as atividades de implementação, o Arsenal Lendário com 88 livros extraídos e 88 frameworks..

Mas a parte que importa não é a lista. É onde você vai estar quando botar isso pra rodar, der erro e não souber qual é o próximo passo.

É para essa hora que a Mentoria existe. Não é curso para assistir e guardar ideia. É diagnóstico, aplicação e sistematização no seu negócio, com gente para chamar quando o calo aperta.

O Luiz vai estar lá dentro como aluno. Ele já é meu aluno no Enterprise, está na comunidade e faz outras mentorias. Não porque o escritório dele precise ser salvo.

Na live semanal de quinta, eu contei o que aconteceu depois que ele levou isso a sério: o escritório ficou tão funcional e diferente que outros advogados começaram a procurá-lo para perguntar o que ele estava fazendo e se ofereciam para pagar para ele mostrar.

Isso não é um caso de sucesso da Mentoria. É justamente o motivo de ele entrar nela mesmo assim: continuar aprendendo, testando e não ficar preso ao que já sabe.

É ambiente em que você para de só assistir, escolhe o seu 0,8%, aplica, erra e sistematiza antes de ir para o próximo.

A garantia é dupla. 7 dias de arrependimento, sem condição.

E a Garantia do Ciclo Completo. Quem percorre as quatro primeiras semanas, participa dos encontros do primeiro ciclo, entrega os artefatos das seis etapas e acha que não valeu recebe o valor de volta.

A segunda não protege a intenção de implementar. Protege quem percorre o processo.

A condição desta abertura, que está na página, vale até 15 de setembro, às 23h59, ou até as primeiras 888 matrículas confirmadas, o que vier primeiro.

Alan Nicolas ♾️
CEO, Academia Lendár[IA]

P.S. Se dois textos saírem da sua mão hoje, num deles você vai estar dentro. Qual dos dois o seu cliente, ou o seu chefe, vai responder?

📚 Livros Recomendados:

A Negacao Da Morte - Ernest Becker: Becker argumenta que quase tudo que a gente constrói existe pra provar que a gente esteve aqui. Se ele estiver certo, mandar pra frente um texto que você não pensou nem conferiu custa bem mais caro do que parece.

Franqueza Radical - Kim Scott: Sem revisão humana você tem um cão correndo sem coleira. Kim Scott passou a carreira estudando por que ninguém diz em voz alta que a entrega ficou ruim, e o que acontece com o time que continua não dizendo.

Influencia - Robert B. Cialdini: Quarenta e dois por cento das pessoas passaram a confiar menos em quem mandou a entrega oca. Cialdini é quem explica por que essa conta não volta atrás: autoridade e prova social levam anos pra construir e um documento pra queimar.

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