
Nesta semana eu estava sentado no sofá, respirando fundo, pensando no meu filho, em quanto eu amo este país e em quanto eu adoro Floripa. E pensando: cara, acabou.
Peguei o celular e escrevi isto:
"Ta um sentimento muito estranho essa pós eleição. Algo como eu nunca experienciei em eleição alguma. Alguém tem sentido isso também? Como se fosse dar uma merda muito grande e é hora de me despedir do Brasil como eu conhecia. Baita sentimento merda"
Achei que era um sentimento só meu. Postei para saber se eu estava numa bolha, viajando.
O meu X é pequenininho, tem perto de 10 mil seguidores. O post chegou a 731 comentários e 345 compartilhamentos. Teve gente tirando sarro de mim, mas não era só eu.
Um dos comentários descreveu assim:
"Há algo diferente no ar. Ao caminhar pela cidade, sinto um clima pesado, estranho, como se nada tivesse muito sentido, como se faltasse qualquer estímulo.
Até o trânsito está alterado, lembra um pós-feriado, mas com menos carros, uma fluidez que não parece natural, uma certa quietude. Não é paz, e sim um hiato, como se a cidade tivesse esquecido por um instante o ritmo próprio."
O que eu sinto é o mar recuando antes de algo grande chegar. O negócio recuou, e a gente não sabe o que está vindo por aí.
Acabou em que sentido? A gente não é mais uma nação. Somos dois povos extremamente polarizados, escalando para uma ruptura que não tem mais volta. Quando eu olho para a história, não vejo como voltar sem uma mudança muito grande, ou décadas de reconciliação.
Sei que vou ser crucificado por isso, mas foi muito difícil até votar. Quando eu digitei o número, o sentimento era: não adianta quem ganhar. Gente hostilizando gente, dos dois lados, já mostrava a ruptura.
Isso me faz mal, porque eu gosto do mundo. Tem gente querendo demitir outra pessoa por causa de voto. Eu entendo quem chegou nesse ponto, mas não queria que fosse assim.
Eu acho que o Brasil, infelizmente, já deu o que tinha que dar. E uma das coisas que sempre achei bonitas aqui, por mais contraditório que pareça vindo de quem trabalha para elevar a consciência das pessoas, é que a gente foi domesticado como um povo só: uma língua, os mesmos canais, o mesmo futebol. O brasileiro que você encontrava lá fora virava na hora o seu melhor amigo.
A gente sempre foi o país do futuro, de um futuro que nunca chega. Mas a esperança de que um dia ele chegasse, mesmo sendo uma moeda cruel, unia as pessoas.
Não tenho político de estimação. E por mais que hoje esteja todo mundo se odiando, a gente está no mesmo barco, e o barco está afundando. A gente vai afundar junto.
Fiz uma análise da eleição com IA e os dados oficiais, sem concluir se houve ou não fraude, só descrevendo os dados. O atlas está nos links do final. Mas este texto não é sobre em quem você votou. É sobre o que vem por aí.

Previsões de IA para o Brasil até 2030: o que não depende de você
Muita coisa já estava a caminho, independentemente de quem fosse eleito, e algumas decisões que mexem com o seu trabalho nem são tomadas no Brasil.
Eu gosto muito dos estoicos, que separam o que compete a nós do que não compete. E o pior agora é o "não sei": quem sabe o que pode vir, mesmo que seja ruim, começa a se organizar.
Em 2023, quando falei num podcast de enxame de agentes e de vídeo gerado em tempo real, muita gente tirou sarro.
Algumas das catorze apostas que escrevi para o Brasil até 2030 dão até vergonha de chamar de previsão, de tão na cara que estão para mim.
Não são cravadas na pedra, e você pode me cobrar.
Fim da escala 6x1 e jornada de 40 horas: por que a hora mais cara vai levar IA ao escritório
O fim da 6x1 vai empurrar mais IA para dentro do escritório do que qualquer lei de IA.
A Emenda Constitucional 141, de 16 de outubro, reduz a jornada máxima mantendo o salário: 42 horas a partir de meados de dezembro, 40 horas um ano depois. O mesmo salário dividido por 40 horas em vez de 44 deixa cada hora 10% mais cara.
Segundo o DIEESE (RAIS 2024), são 36,6 milhões de contratos com carteira acima de 40 horas. Mesmo em informação, finanças e serviços profissionais, o setor mais perto do escritório, 67% passam de 40 horas. Há exceções, como quem já faz 40 horas ou menos.

Numa sondagem da CNI com mais de 1.600 indústrias, automação foi a segunda resposta para a jornada menor (41%), atrás de repassar o custo (51%) e à frente de contratar (33%).
É chão de fábrica, e automação ali não quer dizer IA. A minha aposta começa onde esse dado termina.
Num país em que, na minha leitura, a produtividade já é baixa, a hora mais cara deixa uma saída: vai ter que adotar IA.
Não tem outra forma. Em muito escritório, a primeira conversa séria sobre IA vai acontecer porque a conta da hora mudou, não por causa de uma lei.
Recessão de 2027, demissões e informalidade: por que o emprego não volta igual depois da IA
Na minha leitura, a economia vai apertar. São quatro apostas, e na primeira eu mudei de opinião. A original fica, para você me cobrar:
A recessão de 2027 vai demitir pouca gente e contratar quase ninguém.
Quando escrevi, num domingo à noite, imaginei pouca demissão, porque demitir no Brasil é caro: multa de 40% do FGTS, aviso prévio. Eu mesmo, muitas vezes, adiei uma demissão com o caixa apertado, pensando: deixa eu segurar mais dois meses para juntar a grana.
Essa parte já caiu. Depois dessas primeiras semanas, eu acho que vai ter muita demissão, sim, e já está acontecendo, antes do que eu esperava. Uma parte, eu acredito, tem viés político. A outra é insegurança: quem não consegue prever que daqui a um ano vai estar bom, desliga.
A metade que eu mantenho: quando a recessão passar, as contratações não voltam no mesmo número. As outras três seguem esse raciocínio:
A recessão entra pelo Sul e sai pelo Nordeste.
O PIB volta em 2028. Os empregos que se foram não.
Até 2030, mais de 40% dos trabalhadores vão estar na informalidade.
A empresa que demitir vai continuar precisando produzir, e vai recorrer a IA e automação, não só no escritório.
Quando o PIB voltar, o dono vai perguntar: por que contratar de novo, se coloquei IA e estou faturando mais, com menos dor de cabeça? Daí empresas menores e mais produtivas, e mais gente PJ ou autônoma.
É duro para quem perde o emprego. E é onde eu vejo oportunidade: em crise, o dinheiro troca de mãos. O empresário pequeno e médio vive uma loucura de WhatsApp, boleto e cliente reclamando, sem tempo de parar para olhar para IA.
Agora não tem escolha: vai ter que aprender, ou precisar de quem coloque a IA para rodar no negócio dele. É oportunidade para quem ensina e para quem implementa.
E eu acredito muito em vender a sua inteligência, não só o seu tempo. Imagina que você tem um agente de copy muito bom.
Em vez de usar só nos seus projetos, você aluga. Ele vira um conector, um MCP, que a pessoa liga no Claude que já usa, e você cobra uma mensalidade ou uma taxa sobre o que ela converte. Não precisa ser mais um aplicativo.
Modelos de IA americanos, chips chineses e o data center do Ceará: quem controla o acesso à IA no Brasil
Depois da eleição, eu escrevi que os atritos com os EUA deviam aumentar e que o acesso a modelos de ponta podia ser bloqueado.
Já tinha acontecido, sem relação com o Brasil: em 12 de junho, por uma diretiva americana, a Anthropic suspendeu o Fable 5 e o Mythos 5 para todos. O Fable voltou em 1º de julho.

Até 2030, um órgão do governo brasileiro vai ter acesso negado a um modelo de IA americano.
Órgão brasileiro já usa modelo americano pela nuvem, como a AGU, com os da OpenAI pela Microsoft. E os EUA já usam tecnologia como pressão, restringindo chips da Nvidia para a China. Com o atrito crescendo, aposto que um órgão daqui fica de fora. Junho não confirma: o corte foi para todo estrangeiro.
Até 2028, o primeiro modelo de IA público em português vai rodar em chip chinês.
A China faz os próprios chips, e o governo quer uma IA brasileira. A rota pública mais próxima é o polo do Rio, da RNP com as chinesas Huawei e iFlytek, previsto para julho de 2027 com a promessa de um modelo nacional. A outra máquina do plano federal, em Macaíba (RN), tende à Nvidia.
Aposto que a parte que te responde, não o treino, vai rodar em chip chinês aqui. Posso errar: ninguém diz qual chip entra no Rio, e já há modelo aberto em português treinado em chip americano.
Em 2030, o maior data center do país vai ser chinês, vai ficar no Ceará e ainda vai estar brigando por água.
Essa eu fui estudar bastante. Data center precisa de energia barata, e o Nordeste tem vento e sol. No Pecém, um projeto de 300 MW tem a ByteDance, dona do TikTok, como cliente e deve operar em 2027. O país inteiro tem 706 MW.
Fica em Caucaia, em emergência por seca em 16 dos últimos 21 anos, e já está na Justiça, com perícia do MPF dizendo que falta prova de água. Posso errar: o prédio é da Omnia, da brasileira Patria. A ByteDance aluga.
Até 2028, big tech vai pagar imposto próprio no Brasil, e os EUA vão responder com tarifa.
Na minha leitura, o governo precisa de receita, já não tem muito de onde tirar do brasileiro, e o dinheiro está nas big techs americanas, que mandam boa parte dele para fora.
No discurso da vitória, o presidente reeleito criticou empresas "não pagando imposto". E Washington trata imposto digital como motivo de tarifa: o Canadá recuou do seu na véspera da cobrança, em 2025. Não há proposta formal conhecida aqui.
Em 2030, menos de 10% das exportações brasileiras vão para os EUA.
Essa já bate na porta: no primeiro semestre de 2026, os EUA compraram 9,4% do que o Brasil exportou, a menor fatia da série iniciada em 1997.
A tarifa de 25% encarece o produto daqui lá, enquanto China, petróleo e minério puxam o total. Mas desde 2009 a fatia oscila entre 9,7% e 13,5%.
Fora da lista, uma previsão minha: com subsídio, a gente paga muito menos do que usa. Uma hora isso acaba e a IA fica muito mais cara.
Por bloqueio ou por preço, a nossa saída vai ser usar muito mais modelos chineses, um DeepSeek, um Qwen. Eles vão ser tão bons quanto. Para o dia a dia, não vai fazer diferença.
Marco legal da IA e regulação das redes por decreto: quem vai escrever as regras no Brasil
A lei de IA, o PL 2338/2023, passou pelo Senado e, pela ficha consultada em 29 de outubro, espera parecer na Câmara, sem data.
Em 2027, o marco legal da IA sai da Câmara obrigando quem treina modelo a pagar direito autoral.
Eu não sei como vão fazer os modelos pagarem. Se apertar demais, vai acontecer o que eu vejo na Europa: modelo que não entra, ou chega depois. E a jornada já tem calendário. Por isso aposto que ela pesa antes.
As outras três são sobre as redes, e no fundo sobre política:
A regulação das redes vai ser decidida em fevereiro de 2027, na eleição para presidente da Câmara.
Até 2028, as redes vão ser reguladas por decreto e pelo STF, sem nenhuma lei votada no Congresso.
Se a direita vencer em 2030, o primeiro decreto revogado vai ser o que regula as redes.
Em maio, o Decreto 12.975 mudou o regulamento do Marco Civil da Internet e listou deveres das plataformas, e o 12.976 tratou da proteção das mulheres na internet.
Em 28 de outubro, 27 pedidos para derrubá-los esperavam despacho do presidente da Câmara. Isso não confirma as apostas. Mostra que regra de rede já sai por decreto enquanto a lei não sai.
Eu acho que quem vive da internet vai ter um problema bem grave. Tudo o que eu construí foi graças à escala que a internet dá.
E não é só influenciador: um dentista consegue paciente com anúncio no Instagram, uma borracharia é achada por indicação na internet. Para eles, as regras das redes são as regras do balcão.
O que fazer agora: IA no seu trabalho, a sua família e o que depende de você
Não quero que você termine mais deprimido, mas não adianta fechar os olhos. Volto para o que compete a nós.
A hora. Eu listaria quem na empresa muda de jornada, escolheria uma tarefa recorrente desse time com resultado que dá para conferir e, antes de usar IA, mediria tempo, erro e custo. Começaria o quanto antes.
A sua família. O que eu recomendo é não brigar por político e olhar para a sua família. Se tiver como construir um futuro para ela fora do país, eu recomendo. Se puder ganhar em dólar e viver aqui, maravilha.
Se não der nem um nem outro, aprenda a escalar a sua capacidade produtiva e o básico de tecnologia, inclusive a usar VPN.
Sendo bem sério, dói falar isso: eu não consigo acreditar que em 2030 a gente vá mudar alguma coisa. Não acredito. Talvez seja isso que algumas pessoas sentem: uma descrença de que alguma diferença realmente exista.
Só que eu construí tudo o que construí sem nunca olhar para política. Governo pode dificultar, mas não determina, e não é um ponto final. Eu quero construir, dar uma boa qualidade de vida para o meu filho e poder cobrar quem está lá.
Nenhum governo vai te tirar da miséria, e nenhum governo vai fazer você ficar rico necessariamente. O nosso é nós que fazemos.
O mar recuou, e é desconfortável olhar para a praia vazia. Mas quem está olhando agora ainda tem tempo de se organizar para o que vier.
Comunidade Lendária: aprender a criar e vender soluções com IA perto de quem está aplicando
Eu falo pouco da Comunidade Lendária, e deveria falar mais. É lá que eu ensino, em aula e ao vivo, a parte prática do que escrevi aqui: como criar um chatbot ou uma automação para uma empresa e como vender isso.
Aquele empresário pequeno, afogado em WhatsApp e boleto, vai precisar de alguém que coloque a IA para rodar no negócio dele.
Só que o mais rico lá dentro, para mim, são as pessoas. Gente que quer prosperar nesta era da IA e troca o que está testando.
Nos Hubs Lendários, a gente se encontra presencialmente em várias cidades do Brasil, e a galera troca informação, vende serviços um para o outro ou indica o serviço de outro membro.
Eu gosto de pensar em como usar o artificial para viver o natural. A ideia é a IA assumir o trabalho repetitivo para sobrar mais tempo para outras coisas, inclusive para a sua família.
Abraço,
Alan Nicolas
CEO, Academia Lendár[IA]
Links Citados
Livros para pensar o futuro do trabalho com IA
Rápido e Devagar - Daniel Kahneman: Uma previsão repetida muitas vezes pode começar a parecer um fato. Kahneman investiga como a intuição, a confiança e os atalhos do pensamento afetam nossos julgamentos: uma lente para revisar o que sustenta sua próxima decisão de adotar IA no trabalho.
Antifrágil - Nassim Nicholas Taleb: Qual parte da sua operação deixa de funcionar se a ferramenta muda de preço ou fica indisponível? Taleb discute fragilidade, exposição a perdas e experimentação, oferecendo uma lente para examinar dependências antes de ampliar o uso de IA.
Meditações - Marco Aurélio: Marco Aurélio registrava reflexões sobre julgamento, dever e a própria conduta diante do que acontecia ao redor. A conexão com o trabalho é esta: enquanto o cenário da IA muda, você ainda precisa escolher o que conferir, o que aprender e pelo que vai se responsabilizar.
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Escrita por: Alan Nicolas utilizando Obsidian potencializado com IA
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